
BRASÍLIA, 31 de agosto — Em entrevista ao O Globo, o assessor internacional do presidente Lula, Celso Amorim, que ocupa informalmente o posto de chanceler brasileiro, culpou as sanções americanas pela situação econômica de Cuba e disse que o Brasil teria interesse em voltar a financiar o país assim que fosse encontrada uma solução para a questão das dívidas que Cuba tem com o Brasil, citando até o governo Collor, que “abdicou de metade da dívida que a Polônia tinha conosco” como solução para o problema; Cuba tem uma dívida com o Brasil de cerca de R$ 2,6 bilhões de reais que foram usados para financiar, através do BNDES, exportações de produtos e serviços de empresas brasileiras (incluindo construções).
Como de praxe, Amorim viajou à Cuba no último dia 15/08 para se reunir com o ditador cubano Miguel Díaz-Canel antes da viagem que o presidente Lula fará ao país no próximo dia 15 de setembro.
Díaz-Canel está em seu segundo mandato como presidente cubano após se eleger, em 19/04, em uma eleição que somente ele competiu, com votos de 459 dos 462 parlamentares que puderam votar no pleito (oposição política é ilegal no país).
Segundo Amorim, para o Brasil voltar a financiar Cuba, somente seria preciso encontrar a forma de fazer o país eliminar suas dívidas, que ainda segundo ele, não teriam sido pagas por conta da deterioração de relações após a ‘mudança de governo’.
Amorim comparou essa abordagem com exemplos de cooperação entre países europeus e africanos, e entre os Estados Unidos e o Leste Europeu.
Perguntado sobre se o Brasil poderia doar alimentos à Cuba, Amorim disse que não sabia se isso resolveria o problema ou ajudaria o país, “ajudaria mais a gente financiar”.
A dívida cubana com o Brasil inclui o famoso e polêmico empréstimo brasileiro para a construção em Cuba do Porto de Mariel pela nossa conhecida Odebrecht (visto pelo governo na época como “estratégico”).
O empréstimo envolveu juros baixíssimos, um prazo de 25 anos, e uma garantia (formalizada) de charutos cubanos.


O assessor expressou incredulidade em relação à decisão do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro de votar contra a resolução condenando o embargo a Cuba, seguindo Estados Unidos e Israel, que segundo ele seria a razão da situação econômica do país, e disse que o embargo contradiz os princípios internacionais: “absurdo”.
Na entrevista, Amorim também voltou a repetir o discurso do presidente Lula que causou polêmica sobre a guerra (invasão) na Ucrânia. Segundo o assessor internacional da presidência, nada justificaria a invasão russa, mas que “não há como ignorar as preocupações de segurança da Rússia”. Ainda em suas respostas, citando a Geórgia, que foi invadida em 2008 em uma guerra extremamente violenta (nos mesmos moldes) que acabou com a tomada de território pela Rússia, disse que “a coisa que mais desestabilizou, na minha opinião, a Europa, foi a expansão da OTAN”.
Hoje, na Geórgia, existem duas regiões, Abecásia e Ossétia do Sul, que são consideradas pela Rússia como “independentes”. As duas regiões possuem bases militares russas e seus líderes, escolhidos pela Rússia, já disseram, no início da (nova) guerra na Ucrânia de 2022, que fariam plebiscitos, no estilo russo, para formalizar a entrada das duas regiões na Federação russa.
A “independência” das duas regiões só é reconhecida pela Venezuela, Nicarágua, Nauru, Síria e Coreia do Norte.
Uma semana após a nova invasão russa na Ucrânia, em 3 de março de 2022, recebendo ameaças públicas da Rússia, pediu formalmente para fazer parte da OTAN (o pedido foi encaminhado junto com o pedido da Moldávia, que também tem um território “independente”, a Transnístria, ocupado por Forças militares russas).
Um dia antes do pedido da Moldávia de adesão à OTAN, o autodeclarado ditador bielorrusso Alexandr Lukashenko apareceu em uma transmissão na Bielorrússia mostrando um mapa da invasão na Ucrânia e quais seriam “os alvos” (se colocando ao lado da Rússia). No mapa, o território moldavo da Transnístria estava como ocupado pela Rússia.
(Em atualização)