Justiça Federal em SP muda pena de espião russo preso no Brasil e ele poderá ser libertado de prisão de segurança máxima; governo queria informalmente trocá-lo com os EUA por Allan dos Santos

Espião russo preso na Holanda após tentar entrar no país com o intuito de acessar, com documentos falsos do Brasil, o Tribunal Penal Internacional em Haia “como estagiário” | Imagem de registros online do espião

BRASÍLIA, 27 de julho — Depois da negativa do Ministério da Justiça de enviar o espião russo Sergey Cherkasov, que está em um presídio de segurança máxima de Brasília após tentar entrar no Tribunal Penal Internacional e coletar dados sobre as investigações dos crimes de guerra cometidos pela Rússia na Ucrânia e ser preso na Holanda (com documentos brasileiros oficiais falsificados) pela Inteligência local, o Tribunal Regional Federal da 3ª Região (SP) decidiu por reduzir a pena do espião, que antes era de mais de 15 anos, para 5 anos e 2 meses, o que na prática o colocará nas ruas nos próximos dias (semiaberto).

No Brasil, o espião foi condenado, em primeira instância, por uso de documento falso, porém também é alvo de um inquérito em curso que investiga os crimes de “lavagem de dinheiro, corrupção e espionagem”.

Cherkasov só foi enviado ao Brasil porque no momento de sua prisão ele portava documentos falsos brasileiros em nome de “Victor Muller Ferreira”, brasileiro nato nascido em Niterói, no Rio, em 1989.


Ele não foi único espião russo preso na Europa nos últimos meses com documentos falsos do Brasil. Em 24 de outubro do ano passado, um oficial (coronel) da GRU/Glavnoye Razvedyvatelnoye Upravlenie (inteligência militar russa/soviética) chamado Mikhail Valerievich Mikushin foi preso na Noruega com documentos brasileiros oficiais com o nome de José Assis Giammaria.

Um outro espião, identificado pela Inteligência grega, também viveu no Rio por 5 anos com o nome de “Gerhard Daniel Campos Wittich” e deixou o país no fim do ano passado. Chmirev (sobrenome real do espião), casado com a também espiã russa que morava na Grécia Alexandrovna Smireva, tinha um estabelecimento comercial de impressões em 3D (“3D Rio”) no Rio, estabelecimento que já fez negócios com a Marinha (serviços gráficos no valor de R$ 14,3 mil), com a Polícia do Exército (impressão do mascote, uma cobra de 80 cm, por R$ 3.500) e com o Ministério da Cultura (“500 batoques para rolos de película cinematográfica” por R$ 8.500). Como de praxe, o espião possuía uma certidão de nascimento oficial falsa com o nome de uma mãe que nunca teve filhos.

A PF atualmente trabalha para identificar a rede russa que funciona principalmente na região Sudeste brasileira.


O espião Cherkasov, que poderá ser libertado nos próximos dias, recebia valores mensais em espécie enviados de uma agência bancária no Rio (recebeu R$ 80 mil em um ano). De acordo com a PF, 3 pessoas fizeram os depósitos nessa agência bancária (com imagens verificadas de circuito interno), sendo uma delas Aleksei Matveev, que é um integrante do corpo consular russo. Ele foi registrado fazendo um dos depósitos acompanhado de um homem identificado como Ivan Chetverikov, que visitou o espião preso na cadeia.

Cherkasov, natural de Kaliningrado (enclave russo entre a Polônia e a Lituânia), utilizava uma casa abandonada na cidade de Cotia, São Paulo, para guardar e entregar dados aos seus parceiros. A mãe de Cherkasov, Galina, ainda mora no mesmo local.

Ao ser preso na Holanda, o espião chegou a citar sua mãe brasileira, que já teria falecido. A pessoa citada por Cherkasov de fato existia e de fato havia falecido, porém seus registros, assim como o depoimento de seus familiares (incluindo a irmã da pessoa), confirmaram que ela nunca teve filhos.

Casa abandonada em Cotia (SP) utilizada pelo espião para o estoque, compartimento de dados e esconderijo | Imagem por REPRODUÇÃO/FBI
Casa abandonada em Cotia (SP) utilizada pelo espião para o estoque, compartimento de dados e esconderijo | Imagem por REPRODUÇÃO/FBI

Antes de ser preso, seu histórico de viagens marcava várias passagens por Moscow, Kaliningrado e Belgorod (região vizinha da Ucrânia).

Cherkasov em uma passagem pelo aeroporto da capital russa Moscow

Cherkasov chegou a fazer amizade (se encontraram mais de 30 vezes, todas registradas), no fim de 2021, com uma brasileira que trabalha em um cartório. Em suas conversas com oficiais russos, a mulher teria sido descrita como “confiável e útil”, e o ajudaria, sem saber, a conseguir uma cidadania portuguesa com os documentos falsos.

“Quando eu estava sem meu RG, ela conseguiu uma autorização especial só com a foto que estava no meu celular, e com essa autorização eu consegui começar o processo de cidadania, consegui uma nova carteira de motorista, consegui uma nova certidão de nascimento. Ela autenticou todos os documentos dos meus ‘pais’, o que me fez ganhar tempo e evitar uma atenção desnecessária de advogados. Ela limpou meu CPF, e está pronta para autorizar a compra do meu apartamento com ‘ativos financeiros obtidos legitimamente’ no registro civil, então eu não vou precisar demonstrar a origem do dinheiro. Pela ajuda, eu dei a ela um colar da Swarovsky de US$ 400” –Sergey Cherkasov, em conversa com oficiais russos

Cherkasov usou seus documentos falsos brasileiros (de acordo com os registros de entrada) em Israel, Irlanda e Estados Unidos.


A troca informal: De acordo com fontes do governo (“alta cúpula”), mesmo com a justificativa técnica apresentada pelo ministério da Justiça, o que teria pesado para que o governo brasileiro não enviasse o espião para os Estados Unidos seria a negativa do governo americano em enviar o jornalista Allan dos Santos para o Brasil (“reciprocidade”). Allan, que atualmente se encontra nos Estados Unidos, possui contra si uma ordem de prisão expedida pelo ministro Alexandre de Moraes com a acusação de “ameaçar autoridades, praticar crimes contra a honra e de incitar a prática de crimes”.

Nunca houve registro formal ou informal de disposição do governo americano em enviar Allan dos Santos ao Brasil.

“Você sabe quando os EUA vão extraditar o Allan dos Santos? Pau que dá em Chico também dá em Francisco” -pessoa envolvida na decisão sobre o espião russo em entrevista ao jornal local Metrópoles (não é a única fonte sobre a questão da “reciprocidade” e já abordamos este assunto anteriormente)


A Rússia também tem o interesse em retomar seu espião. A primeira reação do país foi negar qualquer relação com Cherkasov (resposta comum em todos os casos de espiões presos).

Apenas quando houve a identificação formal do espião, a Rússia se posicionou dizendo que ele seria acusado de tráfico de drogas localmente, pedindo assim a sua deportação.

A deportação para a Rússia (sob a alegação falsa do país) já havia sido aprovada pelo ministro Fachin, porém o processo travou por conta das provas que apareceram sobre os outros crimes relacionados ao espião preso (lavagem de dinheiro e espionagem, comprovados com imagens e documentos).

Mais cedo, antes da divulgação da redução de pena do espião, o ministro da Justiça Flávio Dino falou sobre o caso e disse que o espião não seria extraditado e que ele continuaria preso no Brasil.

Se de alguma forma o caminho da Justiça brasileira for a extradição do espião, é provável que o Brasil envie o espião para a Rússia (o que vai ser interpretado novamente pela comunidade internacional como um posicionamento do governo brasileiro em favor do país).


Primeiro post sobre a prisão do espião russo (junho de 2022)

ATUALIZAÇÕES:

  • 28/07 – 08h11. Seguindo decisão do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, Cherkasov continuará preso até a resolução do caso. Apenas o próprio ministro Fachin, que já havia autorizado o envio do espião para a Rússia, poderá revogar a prisão. De acordo com interlocutores da PF, o ministro também já foi informado de que o argumento da Rússia para solicitar a extradição do espião (que ele seria um traficante de drogas) é falso;
  • — Em atualização

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