
ASSUNÇÃO, 5 de novembro — O atual presidente e ex-ministro da Fazenda do Paraguai, Santiago Peña, anunciou no início desta tarde sua renúncia ao cargo, cujo mandato terminaria apenas em 2028, após sofrer pressão da oposição e perder o apoio de sua própria base governista em meio à crise provocada pelo encerramento das atividades do Ueno Bank, o banco mais utilizados do país (3 milhões de clientes), cuja liquidação foi determinada pelo Banco Central do Paraguai em 3 de novembro.
O agora ex-presidente é acusado pelos dois principais grupos (opostos) políticos do país de envolvimento na crise por ter sido sócio, até março de 2025, de uma empresa que detinha participação acionária no Ueno Holding, grupo que integrava a estrutura empresarial ligada ao Ueno Bank. As acusações também envolvem o fato de a instituição administrar cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo dinheiro do sistema previdenciário paraguaio, além de supostas mudanças promovidas pelo governo que teriam favorecido o banco.
Peña foi abandonado até por seu padrinho político, o ex-presidente Horacio Cartes, um dos homens mais ricos do Paraguai e frequentemente associado a denúncias de corrupção e acusações de vínculos com organizações criminosas. Cartes chegou a ter um mandado de prisão preventiva expedido pela Justiça brasileira no âmbito da Lava Jato, por suspeita de ajudar seu amigo pessoal Dario Messer, conhecido como o “doleiro dos doleiros”, preso em julho de 2019, a fugir e ocultar seu patrimônio bilionário. O ex-presidente também foi sancionado pelos Estados Unidos sob acusações de “corrupção significativa” e de vínculos fortes com organizações criminosas e terroristas, incluindo o Hezbollah libanês e redes associadas ao PCC paulista (a sanção foi removida em 2025 pela atual gestão).
Mensaje del Presidente de la República, Santiago Peña, al pueblo paraguayo. pic.twitter.com/RBz6IfFV9L
— Santiago Peña (@SantiPenap) November 5, 2026
Cartes, principal líder do Partido Colorado, do agora ex-presidente Peña, que controla a maioria do Congresso, chegou a anunciar publicamente seu apoio ao impeachment de Santiago Peña, seu indicado à Presidência, afirmando que não ficaria do lado de quem saqueasse recursos públicos, privados e as economias de aposentados.
Peña era tão ligado a Cartes que foi seu ministro da Fazenda durante seu governo e, em 2023, quando foi eleito para o atual mandato de cinco anos, que tinha término previsto para 2028, os dois foram votar juntos, com Cartes caminhando à frente do então presidente-eleito, em uma cena que dava a impressão de que o ex-presidente era o verdadeiro titular do cargo (poste político).
Apesar da renúncia, a Câmara ainda poderá dar prosseguimento ao processo de impeachment contra Peña. O pedido contra seu vice-presidente, Pedro Alliana, foi rejeitado, e ele deverá assumir o comando do país.
Um tapete vermelho já está sendo estendido na entrada do Congresso para a cerimônia de posse do novo presidente.
#AHORA | Inician los preparativos en el Congreso Nacional
Tras la renuncia de Santiago Peña a la Presidencia de la República, Pedro Alliana jurará como nuevo jefe de Estado a las 16:00 horas.
A raíz de ese motivo, ya están colocando la alfombra roja y otros arreglos en la sede… pic.twitter.com/Obkpx5feTV
— Ñanduti (@nanduti) November 5, 2026
Íntegra da apresentação de renúncia: “Queridos compatriotas, hoje me dirijo a vocês em um dos momentos mais difíceis da minha vida, com o coração voltado para o Paraguai e com a convicção de que a nossa República deve estar sempre acima de qualquer pessoa ou circunstância. A história se encarregará de julgar e colocar na sua devida dimensão os acontecimentos que hoje nos toca viver. Tomei a decisão de apresentar minha renúncia à Presidência da República. Faço isso pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar as nossas instituições democráticas. Faço-o com absoluto respeito à nossa Constituição Nacional e aos mecanismos institucionais e democráticos que estabelecemos para nós mesmos como nação. Estou convencido de que nenhum cargo pode estar acima do bem-estar do Paraguai. Também quero pedir desculpas ao povo, caso eu tenha falhado em algum momento; nunca foi minha intenção defraudar a confiança que depositaram em mim. Assumi esta responsabilidade todos os dias com a vontade de trabalhar pelo Paraguai, mas hoje a minha prioridade é uma só: a tranquilidade dos paraguaios que confiaram suas economias ao nosso sistema financeiro. Por trás de cada depósito, há anos de esforço, sacrifício e projetos familiares. Meu maior desejo é que se garanta a devolução desses recursos, que o Fundo de Garantia de Depósitos cumpra a sua finalidade e que sejam protegidos os fundos públicos e os recursos que pertencem a todos os paraguaios. Queridos compatriotas, somos um país que atravessou momentos muito difíceis e que sempre soube se reerguer. Confio profundamente na força do nosso povo e na capacidade das nossas instituições para superar esta situação. Hoje, devemos demonstrar, mais uma vez, que a democracia é respeitada, que as instituições são preservadas e que o Paraguai está acima das nossas diferenças. Nenhum cargo é mais importante do que a estabilidade da República; nenhuma pessoa está acima do Paraguai”
(Matéria em atualização)






