Ex-presidente Jair Bolsonaro é condenado pelo TRF-4 a pagar R$ 1 milhão por “danos morais coletivos” por falas de 2021 que foram julgadas como “racismo recreativo”

Imagem das redes sociais públicas do apoiador citado no caso | Publicação no Instagram

BRASÍLIA, 16 de setembro — Por unanimidade, os três desembargadores da Terceira Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), em Porto Alegre — Rogério Favreto (relator), Roger Raupp Rios e Cândido Alfredo Silva Leal Júnior (presidente da Turma) — condenaram Jair Bolsonaro e a União a pagar, cada um, R$ 1 milhão por “danos morais coletivos”, em razão de falas proferidas pelo ex-presidente em 2021 que a Corte classificou como “racismo recreativo”.

O caso chegou ao TRF-4 por meio de uma apelação cível contra a decisão de primeira instância, de 2023, que havia absolvido o ex-presidente na ação ajuizada em 2021 pelo Ministério Público Federal (MPF) e pela Defensoria Pública da União (DPU).

Os comentários em questão, analisados pelos desembargadores e pela procuradora regional da República Carmem Elisa Hessel — que defendeu a revisão da sentença e a condenação de Bolsonaro por racismo, com o pagamento de indenização por dano moral coletivo — foram falas sobre o cabelo de um apoiador mineiro feitas em duas ocasiões: durante uma então rotineira live presidencial e em uma conversa no chamado “cercadinho”, nos arredores do Palácio da Alvorada.

As falas ditas em tom de piada que foram interpretadas pelos magistrados como racismo são: “Olha o criador de baratas. Como tá essa criação de baratas?”, “Criatório de baratas”, “Você não pode tomar ivermectina, vai matar todos os seus piolhos” e “Tô vendo uma barata aqui”. Elas foram direcionadas ao apoiador Maicon Sulivan, conhecido como “black power do Bolsonaro”.

Para a procuradora Carmem Hessel, Bolsonaro teria reforçado “ideias preconceituosas e estigmatizantes” que contribuíram “para o aumento do preconceito ao reforçar estereótipos negativos” na sociedade.

A defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro, conduzida pela advogada Karina Kufa, argumentou que as falas do ex-presidente não poderiam ser interpretadas como racismo. Segundo Kufa, “quanto aos fatos, a manifestação do recorrido nunca poderia ter sido vista como pretensão de ofensa racial por se tratar de comentário, ainda que jocoso, relacionado a uma característica específica do seu interlocutor. Em nenhum momento da fala do réu foi dito isso em relação ao formato do cabelo, mas, sim, ao comprimento”. A defesa sustentou que os comentários tinham caráter apenas humorístico e pessoal, sem intenção de discriminar ou ofender racialmente o apoiador.

Publicação do apoiador citado no caso

“As declarações do réu, no caso, reforçam ideias preconceituosas e estigmatizantes sobre os cabelos das pessoas negras, com propósito de desqualificar a identidade e as práticas culturais da população negra […] Esse discurso, vindo do então representante máximo do governo brasileiro, contribui para o aumento do preconceito ao reforçar estereótipos negativos. A população negra, como ente coletivo, é titular do direito à proteção antidiscriminatória, reconhecido constitucionalmente […] Ao ver do MPF, o então presidente não proferiu apenas piadas infelizes ou deselegantes, mas incorreu efetivamente na prática de atos de discriminação racial” -procuradora regional da República Carmem Elisa Hessel

Em suas redes sociais, Maicon criticou o julgamento, afirmando que estavam tentando usá-lo para condenar o ex-presidente. Ele ressaltou que os dois são amigos e declarou que Bolsonaro “poderá brincar comigo quantas vezes quiser!”; “não vai rolar!”.

Publicação de Maicon Sulivan

Bolsonaro poderá recorrer da decisão.

É esperado que, em caso de condenação definitiva, a Advocacia-Geral da União (AGU) acione o ex-presidente para ressarcir a parte que venha a ser paga pela União.

Os R$ 2 milhões cobrados pelo MPF (o pedido inicial falava em R$ 5 milhões), de acordo com o descrito, deverão ser destinados a um fundo público.

Também em caso de condenação definitiva, o ex-presidente será obrigado a se retratar publicamente, tanto na imprensa quanto nas redes sociais.


(Matéria em atualização)

Últimas Notícias

Mais lidas da semana

- PUBLICIDADE -spot_img

Matérias Relacionadas

O Apolo nas redes sociais

O Apolo Brasil no Instagram

O Apolo Brasil no Telegram

O Apolo Brasil no X

O Apolo Brasil no TikTok

O Apolo Brasil no Facebook

O Apolo Brasil no Threads

- NOVIDADE -spot_imgspot_imgspot_imgspot_img

Leia mais

Defensoria Pública da União pede que Musk pague R$1 bilhão por dano moral coletivo e violações contra o Estado democrático de Direito

BRASÍLIA, 19 de abril — A Defensoria Pública da União (DPU), órgão do governo responsável por fornecer assistência jurídica gratuita para pessoas que não têm condições de pagar por um advogado particular em questões federais, entrou com um pedido na Justiça Federal da 1ª...