
BRASÍLIA, 21 de setembro — Novas mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro, entregues pela Polícia Federal (PF) aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) em um HD, indicam a existência de um contrato advocatício de R$ 427 milhões, revelado pelo portal Metrópoles, condicionado ao êxito em ações de interesse do banqueiro, dono do Banco Master, nos tribunais superiores, que poderiam destravar cerca de R$ 8,5 bilhões em precatórios com honorários de 5% líquidos sobre o valor dos 12 processos.
O contrato foi firmado com o escritório de advocacia Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos Advocacia, da advogada Camilla Ramos, esposa do desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), que também troca mensagens com o banqueiro. Nas conversas, Vorcaro e seus assessores se referem ao grupo como “Turma do KN”, maneira pela qual o ministro Kassio Nunes Marques é referido nas mensagens.


Em uma das trocas de mensagens com Vorcaro obtidas pelo Metrópoles, a esposa do desembargador aparece celebrando o voto de Nunes Marques em um julgamento sobre precatórios de usinas de cana-de-açúcar (Destilaria Alcídia), afirmando se tratar de “um excelente voto do Min. Nunes Marques fazendo a distinção dos casos em que o título judicial trouxe os critérios da indenização”.



No julgamento em questão, votaram a favor do reconhecimento do débito que favoreceria o Banco Master os ministros Nunes Marques, Toffoli e Fachin, enquanto André Mendonça e Gilmar Mendes votaram contra e ficaram vencidos.
Na época, chamou atenção a mudança de entendimento dos ministros Nunes Marques, que inicialmente havia se declarado impedido por já ter julgado casos relacionados à empresa como desembargador do TRF-1 (medida prevista no Código de Processo Civil para evitar juízes de julgarem em duas instâncias), mas posteriormente decidiu mudar de posição (não há impedimento para isso), e Dias Toffoli, que no julgamento anterior havia votado contra essa indenização.

As mensagens divulgadas também mostram que o desembargador Newton Ramos repassava a Daniel Vorcaro pedidos diretos do ministro Nunes Marques de coisas pessoais como hospedagens no luxuoso hotel Fasano; “Ministro Kassio me pediu para ver se vocês conseguem […]”.


Em outras mensagens, assessores de Vorcaro trataram abertamente de outros pedidos do ministro, que iam desde acesso a eventos e ingressos para corridas de Fórmula 1 até estadias milionárias em mansões com campo de golfe, viagens de avião, incluindo uma de jatinho para participar do aniversário da esposa do desembargador Newton Ramos, e camarote na Sapucaí.
Na última semana, Nunes Marques e Toffoli foram os únicos ministros que se declararam impedidos de participar do julgamento que poderia autorizar uma investigação contra o ministro Alexandre de Moraes por sua proximidade com Daniel Vorcaro. O julgamento acabou sendo adiado pelo plenário do Supremo após voto do próprio ministro Moraes e um pedido de vista de Flávio Dino.
Além das mensagens em tom de ameaça enviadas pelo ministro Gilmar Mendes a Nunes Marques, posteriormente divulgadas pela imprensa nacional, outra reportagem do portal Metrópoles viralizou na mesma manhã em que Nunes Marques se declarou impedido de analisar o início da investigação envolvendo Moraes e o Banco Master (inistro justificou a decisão afirmando ser prudente fazê-lo por ocupar a presidência do Tribunal Superior Eleitoral). A reportagem, por sua vez, foi utilizada por vários ministros alinhados a Moraes para atacá-lo e mencionava mensagens de Vorcaro nas quais eram citados pagamentos mensais de R$ 500 mil ao filho do ministro, de 26 anos, por uma pequena empresa de consultoria no Piauí, entre cujos clientes estariam grandes empresas envolvidas em processos nas instâncias superiores como o Grupo Petrópolis, JBS e a Refit.

De acordo com a PF, pagamentos teriam sido feitos por meio da empresa consultoria e na sequência repassados ao filho do ministro, numa operação de intermediação com um objetivo de ocultar a origem do dinheiro.
Em nota oficial, a assessoria do advogado Kevin Marques, filho de Nunes Marques, afirmou que ele não prestou serviços ao Banco Master nem recebeu recursos do banqueiro Daniel Vorcaro. Segundo Kevin, R$ 281,6 mil recebidos por sua empresa foram pagos pela Consult, empresa para a qual prestou serviços jurídicos especializados na área tributária administrativa, sem qualquer relação com o Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo com o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), a Consult Inteligência Tributária recebeu R$ 6,6 milhões do Banco Master entre agosto de 2024 e julho de 2025, em pagamentos considerados incompatíveis com a capacidade financeira da empresa que havia declarado faturamento de apenas R$ 25,5 mil. A pequena empresa do Piauí também recebeu R$ 11,3 milhões da JBS, dos irmãos Joesley e Wesley Batista por “serviços de consultoria e auditoria fiscal”.
Kevin Marques é dono de 70% de uma empresa chamada Instituto de Pesquisa e Gestão Tributária (IPGT), da qual também é sócio Gabriel Campelo de Carvalho, dono dos 30% restantes.
Francisco Craveiro de Carvalho Junior, pai de Gabriel, é o dono da Consult Inteligência Tributária.
De acordo com a Junta Comercial de São Paulo (dados públicos da JUCESP), as duas empresas, IPGT e Consult (empresa originalmente de Teresina), utilizavam até o início deste ano um mesmo endereço de email ([email protected]) e até mesmo um mesmo endereço físico (incluindo a mesma sala comercial, número 2304).
Resposta em nota oficial do desembargador Newton Ramos: “Esclareço que sou casado com a advogada Camilla Ramos, que atua em causas cíveis para o Banco Master. Vale destacar que mantínhamos relação pessoal com o ex-banqueiro antes dos fatos ora objeto de investigação. Em razão da participação societária na empresa Prime You, o empresário foi consultado sobre a disponibilidade de imóveis e transportes. Tratou-se de situação privada articulada com a profissional que presta serviços para o referido banco, sem qualquer vínculo com funções públicas. Por fim, nunca julguei qualquer causa de interesse do Banco Master”.
Resposta em nota oficial do ministro Nunes Marques: “O ministro Kassio Nunes Marques nunca votou a favor de Daniel Vorcaro ou do Banco Master, nunca trocou mensagens com o banqueiro e nem pediu nada a ele. O ministro também nunca autorizou ninguém a falar em nome dele. São irresponsáveis quaisquer tentativas de relacionar a atuação do Ministro com os serviços prestados pelo filho ou quaisquer terceiros. Em relação ao processo citado sobre a usina, o ministro Kassio Nunes Marques estava impedido por anotação da Secretaria porque decidiu o caso como vice-presidente do TRF-1. Posteriormente compreendeu que tecnicamente não estava impedido, por se tratar de tese ampla, pediu retificação à Secretaria e acabou votando. Votou diversas vezes no mesmo sentido enquanto estava no TRF-1. Embora na mensagem eles estivessem comemorando o resultado, não se tratava de ação sobre o Master, era uma tese que se aplicaria a diversas empresas.”
(Matéria em atualização)







