Lula enviará carta à The Economist após ser descrito pela revista britânica como impopular em casa e sem influência no exterior

Lula | Imagem ilustrativa por Ricardo Stuckert/PR

BRASÍLIA, 1 de julho — O governo brasileiro enviará oficialmente uma carta à famosa The Economist após a revista britânica publicar um editorial que retrata o presidente Lula como cada vez mais impopular no Brasil e com influência em declínio no cenário internacional, destacando incoerências na política externa de seu governo e o forte desgaste refletido em todas as pesquisas de opinião.

De acordo com interlocutores do governo, a carta será assinada pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, que nesta gestão atua abaixo do assessor especial da Presidência, Celso Amorim, e será enviada à revista através da embaixada brasileira em Londres.

Na carta, o governo brasileiro tentará rebater as críticas da revista à crescente proximidade de Lula com ditaduras pelo mundo, apesar dos discursos de paz do presidente; responderá às acusações de falta de pragmatismo diante dos conflitos atuais e à falta de interesse dos líderes mundiais em escutar Lula, críticas baseadas nas posições assumidas pelo presidente na invasão russa à Ucrânia, na guerra em Gaza contra o grupo terrorista Hamas e no bombardeio às bases nucleares do Irã; além disso, o governo tentará defender Lula das críticas sobre sua impopularidade crescente, apontada por todas as pesquisas recentes, que registram há meses um forte declínio em sua aprovação, e sobre sua fragilidade política interna, exposta com a derrubada de um decreto presidencial pelo Congresso — algo que não acontecia há mais de 30 anos.

Ainda não é possível prever se a carta será divulgada pelo governo ou pela própria revista.

Sobre os assuntos abordados, interlocutores que tiveram acesso ao conteúdo da carta disseram que a crítica à falta de pragmatismo de Lula por não buscar uma relação ou sequer contato com o presidente argentino Javier Milei não será mencionada.

Lula não conversa com o presidente argentino, Javier Milei, por diferenças ideológicas. Quando assumiu o cargo pela 3ª vez, em 2023, abraçou Nicolás Maduro, o autocrata da Venezuela, apesar de o país ter se tornado uma ditadura” -trecho do editorial da revista The Economist

Também não está claro como a estrutura oficial do Estado brasileiro defenderá Lula diante da avaliação da revista de que o presidente provavelmente será derrotado por qualquer candidato que consiga unificar uma oposição em 2026.

Bolsonaro provavelmente será preso em breve por supostamente planejar um golpe para permanecer no poder após perder uma eleição em 2022. Ele ainda não escolheu um sucessor para liderar a direita. Mas se o fizer e a direita se unir a essa pessoa antes das eleições de 2026, a presidência será deles” -trecho do editorial da revista The Economist

Ainda segundo interlocutores, a decisão de enviar uma carta em resposta à revista britânica, assim como a forma de envio, foi tomada ontem (30) durante uma reunião do governo.

ATUALIZAÇÃO

Segue a íntegra da carta enviada pelo Itamaraty à revista The Economist:

“Em relação ao recente artigo publicado na sua página na internet em 29 de junho, gostaria de fazer as seguintes considerações. Poucos líderes mundiais, como o Presidente Lula, podem dizer que sustentam com a mesma coerência os quatro pilares essenciais à humanidade e ao planeta: democracia, sustentabilidade, paz e multilateralismo. Como Presidente do G20, Lula construiu um difícil consenso entre os membros, no ano passado, e ao longo do processo logrou criar uma ampla aliança global contra a fome e a pobreza. Também apresentou uma ousada proposta de taxação de bilionários que terá incomodado muitos oligarcas. O Brasil vê o BRICS como ator incontornável na luta por um mundo multipolar, menos assimétrico e mais pacífico. Nossa presidência trabalhará para fortalecer o perfil do grupo como espaço de concertação política em favor da reforma da governança global e como esfera de cooperação em prol do desenvolvimento e da sustentabilidade. Sob a liderança de Lula, o Brasil tornou-se um raro exemplo de solidez institucional e de defesa da democracia. Mostrou-se um parceiro confiável que respeita as regras multilaterais de comércio e oferece segurança a investidores. Como um país que não tem inimigos, o Brasil é também um coerente defensor do direito internacional e da resolução de disputas por meio da diplomacia. Não fazemos tratamento à la carte do direito internacional nem interpretações elásticas do direito de autodefesa. Lula é um eloquente defensor da Carta das Nações Unidas e das Convenções de Genebra. A posição do Brasil quanto aos ataques ao Irã e, sobretudo, às instalações nucleares é coerente com esses princípios. Nossa condenação responde ao fato elementar de que essas ações constituem uma flagrante transgressão da Carta da ONU. Ferem, em particular, as normas da Agência Internacional de Energia Atômica, organização responsável por prevenir contaminação radioativa e desastres ambientais de larga escala. Na gestão do Presidente Lula, o Brasil condenou a invasão da Ucrânia pela Rússia, ao mesmo tempo em que apontou a necessidade de abrir caminhos para uma resolução diplomática do conflito, ainda em 2023. Lula não é popular entre os negacionistas climáticos. Em face de uma nova corrida armamentista, ele está entre os líderes que denunciam a irracionalidade de investir na destruição, em detrimento da luta contra a fome e do aquecimento global. Para humanistas de todo o mundo, incluindo políticos, líderes empresariais, acadêmicos e defensores dos direitos humanos, o respeito à autoridade moral do presidente Lula é indiscutível.” -governo brasileiro


(Matéria em atualização)

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