
BRASÍLIA, 9 de julho — Sob críticas dos Estados Unidos, o governo Lula oficializou a decisão de expulsar do Brasil (na prática, devolver à Rússia) o espião russo Sergey Vladimirovich Cherkasov, agente da Glavnoye Razvedyvatelnoye Upravlenie (GRU – inteligência militar russa/soviética), que está preso desde 2022 em Brasília após ser detido por tentar usar documentos brasileiros para ingressar no Tribunal Penal Internacional, na Holanda, onde buscava coletar informações sobre as investigações de crimes de guerra cometidos pela Rússia na Ucrânia.
No Brasil, o espião cumpre pena na Penitenciária Federal de Brasília (presídio de segurança máxima) pelo crime de uso de documento falso (falsidade ideológica). Cherkasov também foi alvo de um inquérito, encerrado no fim do ano passado sem conclusão, que investigava os crimes de lavagem de dinheiro, corrupção e espionagem. Segundo a Polícia Federal, ele passou por uma “fábrica de espiões” que explorava a facilidade para obtenção e falsificação de documentos brasileiros, permitindo a criação de identidades falsas utilizadas por agentes de inteligência russos. De acordo com as investigações, essa estrutura operou por mais de 12 anos e se beneficiava da ampla aceitação internacional do passaporte brasileiro, além do fato de os brasileiros não possuírem um padrão único de características físicas, sotaque ou origem, o que dificultava a identificação desses agentes por autoridades estrangeiras.
O espião deverá ser entregue à Rússia no ano que vem (pode ser enviado antes disso em uma eventual decisão do Supremo), quando concluir o cumprimento de sua pena de apenas 5 anos e 2 meses. A condenação havia sido inicialmente fixada em 15 anos de prisão, mas foi reduzida em julho de 2023 pelo Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3), em São Paulo.
Cherkasov só foi enviado ao Brasil porque no momento de sua prisão ele portava documentos falsos brasileiros em nome de “Victor Muller Ferreira”, brasileiro nato nascido em Niterói, no Rio, em 1989.
De acordo com investigações da própria PF, o espião recebia valores mensais em espécie enviados de uma agência bancária no Rio (recebeu R$ 80 mil em um ano). Segundo a PF, 3 pessoas fizeram os depósitos nessa agência bancária (com imagens verificadas de circuito interno), sendo uma delas Aleksei Matveev, que é um integrante do corpo consular russo. Ele foi registrado fazendo um dos depósitos acompanhado de um homem identificado como Ivan Chetverikov, que visitou o espião preso na cadeia.


Natural de Kaliningrado (enclave russo entre a Polônia e a Lituânia), Cherkasov utilizava uma casa abandonada na cidade de Cotia, São Paulo, para guardar e entregar dados aos seus parceiros. A mãe de Cherkasov, Galina, ainda mora no mesmo local.

Ao ser preso na Holanda, o espião alegou ser filho de uma brasileira já falecida. A mulher citada por Cherkasov realmente existiu e de fato havia morrido, mas registros oficiais e depoimentos de familiares, incluindo a própria irmã da mulher, confirmaram que ela nunca teve filhos, desmontando a identidade falsa utilizada pelo agente russo.


Cherkasov chegou a fazer amizade (se encontraram mais de 30 vezes, todas registradas), no fim de 2021, com uma brasileira que trabalha em um cartório. Em suas conversas com oficiais russos, a mulher teria sido descrita como “confiável e útil”, e o ajudaria, sem saber, a conseguir uma cidadania portuguesa com os documentos falsos.
“Quando eu estava sem meu RG, ela conseguiu uma autorização especial só com a foto que estava no meu celular, e com essa autorização eu consegui começar o processo de cidadania, consegui uma nova carteira de motorista, consegui uma nova certidão de nascimento. Ela autenticou todos os documentos dos meus ‘pais’, o que me fez ganhar tempo e evitar uma atenção desnecessária de advogados. Ela limpou meu CPF, e está pronta para autorizar a compra do meu apartamento com ‘ativos financeiros obtidos legitimamente’ no registro civil, então eu não vou precisar demonstrar a origem do dinheiro. Pela ajuda, eu dei a ela um colar da Swarovsky de US$ 400” —Sergey Cherkasov, em conversa com oficiais russos
Utilizando os documentos brasileiros obtidos de forma fraudulenta, Cherkasov conseguiu entrar em Israel, Irlanda e até nos Estados Unidos, país que posteriormente formalizou um pedido de extradição do espião (o Brasil recebeu inúmeros dados sobre o espião que foram enviados pela CIA).


Crítica americana: Em resposta a decisão do governo Lula, o porta-voz do Departamento de Estado americano afirmou que os EUA estão “profundamente preocupados” com a medida e que isso enfraqueceria o compromisso conjunto de combater interferências estrangeiras.
“Os Estados Unidos estão profundamente preocupados com a decisão do Brasil de permitir que um indivíduo com vínculos conhecidos com a inteligência russa deixe o país […] Essa decisão enfraquece nosso compromisso conjunto de combater interferências estrangeiras e proteger a integridade de nossas instituições democráticas” —Departamento de Estado Americano
A troca informal: De acordo com fontes do governo (“alta cúpula”), mesmo com a justificativa técnica apresentada pelo ministério da Justiça, o que teria pesado para que o governo brasileiro não enviasse o espião para os Estados Unidos seria a negativa do governo americano em enviar o jornalista Allan dos Santos para o Brasil (“reciprocidade”). Allan, que atualmente se encontra nos Estados Unidos, possui contra si uma ordem de prisão expedida pelo ministro Alexandre de Moraes com a acusação de “ameaçar autoridades, praticar crimes contra a honra e de incitar a prática de crimes”. Nunca houve registro formal ou informal de disposição do governo americano em enviar Allan dos Santos ao Brasil.
“Você sabe quando os EUA vão extraditar o Allan dos Santos? Pau que dá em Chico também dá em Francisco” —pessoa envolvida na decisão sobre o espião russo em entrevista ao jornal local Metrópoles (não é a única fonte sobre a questão da “reciprocidade” e já abordamos este assunto anteriormente)
(Matéria em atualização)






